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feroz

Estávamos tão perto que podia sentir seu hálito. Era quente e denso e cheirava a carne morta. Se enfocasse o olhar, provavelmente veria as baforadas saindo da boca enorme, escancarada e atapetada por uma insólita língua cor de rosa, protegida por quatro caninos afiados. Mas não dava para enfocar o olhar. Não com os olhos arregalados. Olhos esbugalhados, isso sim, quase saltando das órbitas. E não posso dizer ao certo se era de horror ou maravilha, mas meu coração estava a ponto de explodir.

Era quase engraçado. Porque todos os meus órgãos internos se mexiam ao mesmo tempo, um para cada lado, que nem barata tonta, e meu cérebro latejava e trepidava e se arrepiava, tudo ao mesmo tempo agora, mas meu corpo – cabeça, tronco e membros – estava totalmente congelado. Tudo o que podia se mover à minha revelia o fazia, sem o mínimo pudor e com a máxima atrapalhação. Tudo o que dependia da minha vontade estava estacionado.

Desesperada, busquei uma pista naqueles olhos ridiculamente desproporcionais. Não tenho certeza se eles estavam olhando exatamente para mim, porque além de pequenos, eram superseparados. Mas se estivessem, era com um baita desdém. Não sei porque. Não era eu que tinha uns olhinhos minúsculos dançando em uma carona gigante. Posso não ser muito assustadora, mas pelo menos sou proporcional. Embora, pensando bem, esse desdém talvez me conviesse. Se me desdenhava tanto, talvez nem notasse quando eu saísse de mansinho…

Minha respiração estava histérica, mas depois de umas tantas tentativas frustradas consegui chegar a algo parecido com um ritmo. Tentei relaxar a cara, mas acabei fazendo uma careta. Fiz um rápido inventário de meus recursos – o corpo que não se movia, o coração que queria sair pela boca, a mente espezinhada por uma debandada de ideias sem pé nem cabeça. Podia ser pior. Pelo menos não tinha dor de barriga. Nem coceira.

Animada por ver que meu senso de humor continuava o mesmo, ou seja, idiota, arrastei o pé direito para trás meio centímetro, em direção à porta. Os olhinhos de pigmeu nem aí. Dei um tempo para disfarçar e mandei outro micropasso. De repente, ele abriu o bocão até as orelhas, até os olhinhos ridículos se transformarem em dois traços oblíquos, e desenrolou a língua gorda com um tapete em noite de estreia. O reflexo me fez fechar os olhos bem apertados, mas abri rapidinho porque quando a gente sente a morte saltando no cangote, uma vozinha imbecil sempre berra no nosso ouvido: abre o olho, caralho!, e você abre porque acredita que isso vai lhe salvar.

E dessa vez me salvou. Pelo menos de morrer de susto, porque foi olhando que vi que o ataque temido não era mais do que um bocejo. Não é muito lisonjeiro que bocejem na sua cara, mas ganhei confiança. Dei outro passo para trás, dessa vez maior e com a perna direita. Ele fez um movimento ligeiro, quase imperceptível. Hesitei por um átimo, e optei pela solução kamikaze. Virei as costas e comecei a correr.

Não havia mais do que três metros até a porta, mas a sensação era que ela não chegaria nunca. Quando toquei na maçaneta, estava ofegante e trêmula. Minhas mãos suavam, escorregando pelo aço liso, que não se deixava agarrar e muito menos girar. Estiquei as mangas da camisa, improvisando uma luva, ajudei com a outra mão, tremendo e suando, enquanto um calafrio escalava minha espinha como um punhal em chamas. Quando finalmente consegui girar a alavanca e puxar a porta, o pavor me empurrou pela nesga, me esfregando contra o portal.

Antes de deixar para trás o horror, não resisti a uma última olhada. Foi aí que vi, no outro extremo do quarto, por uma porta entreaberta que nunca soube que existia, dois olhos minúsculos que me olhavam assustados.

Published inescalofríosrandom

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